6 anos sem fumar!
Eu tinha um tique. Antes de acender o cigarro, dava umas batidinhas com ele no meu isqueiro. Não sei se era um tique, um ritual ou se era para que o fumo ficasse mais compacto. Ou se estava tentando dizer algo assim como “eu sei que fumar faz mal e a sua opinião não me interessa”. Talvez eu tivesse visto o gesto em algum filme e ele ficou na minha cabeça. Ou ainda fosse apenas porque esta era a única e elegante expressão masculina de autoridade que eu me permitia. Enfim, não sei o que eram essas batidinhas...
Fui à uma festa. Era uma daquelas que o anfitrião mistura tudo que é gente para ficar mais “interessante”. Ator, crítico de arte, prêmio de literatura, artista da exposição do momento, politécnico, conservador de museu, curador brasileiro, etc. Ninguém se comunica, mas fica mais interessante. Tinha lá uma moça russa, vestida como uma russa, com sotaque e cara de russa. Não podia ser mais russa. Só que, ao contrário dos russos, essa não era simpática. Não era agradável com ninguém e sobretudo comigo. Cada vez que eu acendia um cigarro, ela me olhava feio, mas muito feio mesmo. Até o momento em que se aproximou e inquiriu: “Me diga uma coisa, porque é que você bate com o cigarro no isqueiro antes de acender?”. “Estou incomodando com a fumaça ?”, perguntei educadamente. “A fumaça não me incomoda, eu também fumo”. “Então é a marca?” perguntei de novo. “Não, eu também fumo cigarros americanos”. Olhei-a bem para me certificar de que ela não tinha exagerado na vodca: “Nesse caso, qual é o problema?”. Ela afirmou peremptória: “Você é da KGB.” “KGB, eu ?”. “Você é da KGB!” repetiu, me fuzilando com os olhos. Eu quis rir, mas resolvi responder no mesmo tom: “Olha aqui, não lhe dou o direito de me acusar, mesmo porque se eu parecesse de algum serviço secreto, seria o polonês e não o russo!” Uma vez que ela continuava a me olhar de maneira inquisitória, emendei: “...seria o brasileiro e não o russo!” Como ainda não parecia convencida, indaguei: “Afinal, o que faz você pensar que sou da KGB?” “Você bate com o cigarro no isqueiro antes de acender”. “E daí?”. “Esse é o código da KGB!”. Ela virou as costas e eu acendi mais um cigarro, não sem antes dar umas batidinhas com ele no meu isqueiro.
Até amanhã, que agora é hoje e há seis anos exatos parei de fumar graças à TOCMF!
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