Isto não é um necrológio
Jean Baudrillard (1929 - 2007)
Não sei porque sempre escrevi necrológios que as pessoas diziam ser bons. Se algum personagem conhecido no mundo das artes plásticas estivesse à beira da morte e mesmo se os editores do jornal já tivessem prontas em suas gavetas a reportagem e a biografia do futuro defunto, era de mim que eles esperariam o texto escrito sob a "emoção do momento".
Eu, justo eu que detesto coisas lúgubres, por certo era uma necrologista nata! Entendia perfeitamente que, entre outras coisas, o jornalismo tinha que ser preventivo: antecipar os fatos para poder melhor descrevê-los ao leitor. Eu não antecipava nada, mas quando fosse chegado o momento não apenas obedecia às ordens e desfiava a emoção, como exercia com todas as minhas forças um insuspeitado talento de orador paroquial em missa de 7° dia.
Hoje eu não tenho editor. E, desde que a notícia apareceu nas "atualidades" da barra Google à direita do meu micro, estou chorando. Ainda sem conseguir admitir – mesmo sob o choque de vê-lo naquele estado durante o lançamento da antologia de ensaios sobre a sua obra no Cahiers de l’Herne há dois anos - que um grande pensador, talvez um dos maiores de nossa era, estava de fato "à beira da morte". Para não fazer o seu necrológio com antecipação. Para não fazer o seu necrológio em geral.
Jean Baudrillard, isto não é um necrológio. Isto é um "post" escrito em computador, coisa que você detestava, dentro de um blog que talvez você não tivesse paciência de ler. Jean Baudrillard, vou sentir a sua falta. Vou lembrar de você por toda a vida que me resta. Vou lembrar que, convidado a vir ao Brasil pela primeira vez, você entrou em meu escritório da Bienal como um leão à contragosto talvez porque a arte, sobretudo a contemporânea, nunca foi a sua "taça de chá". E mesmo assim, Jean Baudrillard, ou talvez justamente por causa disto – você foi o seu profeta!
A contragosto ou não, leão você era. Personalidade de leão você tinha. Com a cabeça grande demais em proporção ao resto do seu corpo, a sua testa alta, os olhos claros, vivos e a vasta cabeleira, físico de leão você possuía! Altivo e sereno você foi.
Desde então, durante estes últimos 22 anos, longe das discussões intelectuais, você tornou-se o meu grande amigo. Você me fez rir e pensar. Você foi testemunha carinhosa das mudanças em minha vida e também, doce ironia, testemunha "burocrática" nos papéis do meu casamento. Justo você que via toda e qualquer artificialidade do sistema com tanta lucidez. No dia do meu casamento, você fotografou as torres gêmeas Mercuriales, da minha janela, como se já pressentisse o espírito do terrorismo, brilhante artigo que iría escrever 8 anos depois. Naquele mesmo dia você me trouxe de presente duas grandes fotos emolduradas, feitas por você, uma das quais eu tive a caradura de pedir para você trocar pois não quis aquela imagem tétrica na minha parede. Você riu muito...
Também eu fui testemunha do seu humor, brilho, inteligência, às vezes de sua ingenuidade e deslumbramento infantil, de suas certezas e incertezas. Estivemos juntos em outros países, em congressos, em várias esferas, na intimidade de nossas casas, na vida mundana parisiense, nas ruas em longas caminhadas, nos jantares da grande cidade, nas comemorações de cada aniversário e cada livro, nas homenagens, nos restaurantes de Montparnasse, no campo, infelizmente não em seu casamento no bar maluco do 20° arrondissement (eu estava no Brasil), no seu "moinho" ao norte, não longe de Paris, onde centenas de amigos vieram comemorar e assistir as atrações estranhas que coroaram os seus 70 anos, no barco à beira do Sena onde camelos de verdade recepcionavam os convidados e em todas as excentricidades de Marine, sua mulher, nas quais você parecia sempre ausente, como um espectador de sua própria vida.
Eu ouvi as suas histórias, os relatos de suas viagens, a narração dos seus retiros anuais na sua “garrigue do midi” sempre naquela casa sem eletricidade, onde você escrevia à luz do lampião e onde, um dia, acordou coberto de fuligem perdendo todos os seus manuscritos... Era daquela região que você trazia o delicioso Fitou, vinho que saboreávamos ora olhando a sua poltrona com o "jeté" vermelho que você imortalizou em uma foto, ora observando a bola de cristal que eu trouxera do Brasil e que você colocara com tanto carinho sobre a chaminé.
A palavra amor é pequena para conter os sentimentos que trocamos. E as palavras admiração e respeito, Jean Baudrillard, são totalmente insuficientes para descrever o que eu sinto por você. Até sempre, que agora é hoje. Descanse em paz!
***
Fiz quatro entrevistas com Jean Baudrillard (1991, 1995, 1997 e 1999). Por enquanto, deixo aqui apenas os links para duas delas:
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1997
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1999
Eu, justo eu que detesto coisas lúgubres, por certo era uma necrologista nata! Entendia perfeitamente que, entre outras coisas, o jornalismo tinha que ser preventivo: antecipar os fatos para poder melhor descrevê-los ao leitor. Eu não antecipava nada, mas quando fosse chegado o momento não apenas obedecia às ordens e desfiava a emoção, como exercia com todas as minhas forças um insuspeitado talento de orador paroquial em missa de 7° dia.
Hoje eu não tenho editor. E, desde que a notícia apareceu nas "atualidades" da barra Google à direita do meu micro, estou chorando. Ainda sem conseguir admitir – mesmo sob o choque de vê-lo naquele estado durante o lançamento da antologia de ensaios sobre a sua obra no Cahiers de l’Herne há dois anos - que um grande pensador, talvez um dos maiores de nossa era, estava de fato "à beira da morte". Para não fazer o seu necrológio com antecipação. Para não fazer o seu necrológio em geral.
Jean Baudrillard, isto não é um necrológio. Isto é um "post" escrito em computador, coisa que você detestava, dentro de um blog que talvez você não tivesse paciência de ler. Jean Baudrillard, vou sentir a sua falta. Vou lembrar de você por toda a vida que me resta. Vou lembrar que, convidado a vir ao Brasil pela primeira vez, você entrou em meu escritório da Bienal como um leão à contragosto talvez porque a arte, sobretudo a contemporânea, nunca foi a sua "taça de chá". E mesmo assim, Jean Baudrillard, ou talvez justamente por causa disto – você foi o seu profeta!
A contragosto ou não, leão você era. Personalidade de leão você tinha. Com a cabeça grande demais em proporção ao resto do seu corpo, a sua testa alta, os olhos claros, vivos e a vasta cabeleira, físico de leão você possuía! Altivo e sereno você foi.
Desde então, durante estes últimos 22 anos, longe das discussões intelectuais, você tornou-se o meu grande amigo. Você me fez rir e pensar. Você foi testemunha carinhosa das mudanças em minha vida e também, doce ironia, testemunha "burocrática" nos papéis do meu casamento. Justo você que via toda e qualquer artificialidade do sistema com tanta lucidez. No dia do meu casamento, você fotografou as torres gêmeas Mercuriales, da minha janela, como se já pressentisse o espírito do terrorismo, brilhante artigo que iría escrever 8 anos depois. Naquele mesmo dia você me trouxe de presente duas grandes fotos emolduradas, feitas por você, uma das quais eu tive a caradura de pedir para você trocar pois não quis aquela imagem tétrica na minha parede. Você riu muito...
Também eu fui testemunha do seu humor, brilho, inteligência, às vezes de sua ingenuidade e deslumbramento infantil, de suas certezas e incertezas. Estivemos juntos em outros países, em congressos, em várias esferas, na intimidade de nossas casas, na vida mundana parisiense, nas ruas em longas caminhadas, nos jantares da grande cidade, nas comemorações de cada aniversário e cada livro, nas homenagens, nos restaurantes de Montparnasse, no campo, infelizmente não em seu casamento no bar maluco do 20° arrondissement (eu estava no Brasil), no seu "moinho" ao norte, não longe de Paris, onde centenas de amigos vieram comemorar e assistir as atrações estranhas que coroaram os seus 70 anos, no barco à beira do Sena onde camelos de verdade recepcionavam os convidados e em todas as excentricidades de Marine, sua mulher, nas quais você parecia sempre ausente, como um espectador de sua própria vida.
Eu ouvi as suas histórias, os relatos de suas viagens, a narração dos seus retiros anuais na sua “garrigue do midi” sempre naquela casa sem eletricidade, onde você escrevia à luz do lampião e onde, um dia, acordou coberto de fuligem perdendo todos os seus manuscritos... Era daquela região que você trazia o delicioso Fitou, vinho que saboreávamos ora olhando a sua poltrona com o "jeté" vermelho que você imortalizou em uma foto, ora observando a bola de cristal que eu trouxera do Brasil e que você colocara com tanto carinho sobre a chaminé.
A palavra amor é pequena para conter os sentimentos que trocamos. E as palavras admiração e respeito, Jean Baudrillard, são totalmente insuficientes para descrever o que eu sinto por você. Até sempre, que agora é hoje. Descanse em paz!
***
Fiz quatro entrevistas com Jean Baudrillard (1991, 1995, 1997 e 1999). Por enquanto, deixo aqui apenas os links para duas delas:
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1997
O Estado de S. Paulo – Caderno 2 - 1999

Lançamento da antologia de ensaios sobre a obra de Baudrillard no Cahiers de l’Herne, 11 de fevereiro de 2005.

Torres Mercuriales sob a neve, fotografadas por mim alguns dias depois do lançamento do livro...

Torres Mercuriales ao crepúsculo, fotografadas por mim recentemente...








































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