Dr. Ruy foi o nosso anjo da guarda
Esta minha carta a Frederico de Moraes foi escrita em Paris, no
dia 2 de abril de 1998, por ocasião da palestra sobre a censura que ele
proferiu na FUNARTE, onde relatou a experiência dele enquanto Juri do
IV Salão Global de Inverno de Belo Horizonte, em 1976, junto com Rubens
Gerchman, Mario Cravo, Carybé e eu.
Escrevo-lhe para dar o meu apoio à iniciativa da Funarte em debater a questão da Censura em nosso país, e me juntar a você no seu relato do "caso Lincoln Volpini" do qual partilhamos, cada um à sua maneira, o testemunho e os dissabores em 1976.
Tenho a lembrança (ou o sentimento) que, além do artista - condenado a um ano de prisão pelo Conselho Permanente de Justiça da 4º Região Militar de Juiz de Fora - você foi o mais prejudicado de todos nós, pois, se a memória não me falha, você presidiu o nosso júri que premiou a obra de Volpini, no IV Salão Global de Inverno de Belo Horizonte. O desfecho do processo para você, Rubens Gerchman, Mario Cravo e Carybé foi diferente do meu. Pois, talvez você se lembre, um filho de cinco anos adoentado que estava comigo, me fêz deixar Belo Horizonte pouco antes do final do nosso trabalho de seleção.
Porém, o fato de ter sido excluída "por motivo de saúde" do processo que durou 2 anos, não me afastou do sofrimento, medo e revolta durante o período dos interrogatórios. Mesmo que eu não o tenha premiado lembro-me da obra que depois foi retirada da galeria do Salão Global, realizado em Ouro Preto, por ordem da polícia. Esta alegou que o trabalho divulgava conteúdo subversivo porque mostrava a bandeira brasileira (sem a frase "Ordem e Progresso") e a inscrição "Viva a guerrilha do Pará - 73".
Eu me sentia solidária a vocês e àquele jovem pintor mineiro de 24 anos, estudante da Escola de Belas Artes da UFMG, a quem os policiais recomendavam fazer uma arte "pura", como se estivéssemos revivendo os tempos dos "degenerados" na Alemanha nazista. Vai ficar marcado em minha memória para sempre, o momento de perplexidade e, em seguida, de horror – pouco depois da morte de Wladimir Herzog - em que ví a Polícia Federal bater à minha porta, para me encaminhar a interrogatório.
Porque tive o bom reflexo de telefonar ao meu editor no jornal "O Estado de S. Paulo", fui alertada sobre o perigo e aconselhada a aguardar imóvel a chegada de um advogado. Rapidamente veio o Dr. Aloisio de Toledo César, advogado e jornalista da Empresa, que - a pedido do Dr. Ruy Mesquita - me acompanhou até as dependências da Polícia Federal, onde passei a tarde e parte da noite, e para onde voltei ainda várias vêzes, sempre acompanhada do advogado. O ambiente, a tensão, a pressão, o absurdo do teor, e também a forma como as perguntas me foram colocadas, eu só tinha visto na literatura de Kafka, Dürenmatt, Malaparte, e nos filmes de Solanas e Gavras, entre outros.
Imagino o que este momento tenha significado para você, para os colegas de júri, e para o jovem artista. Conheço e admiro a sua militância em favor dos direitos do homem, por meio de sua atuação política e artística. Sei que a sua experiência é maior do que a minha que se limita à ação estudantil no final dos anos sessenta, à uma vivência pessoal sem dúvida assustadora durante a prisão, o interrogatório, a queima de livros e a tortura de meus amigos e de meu primeiro marido em 1970, e à censura de partes de meus artigos pelos interventores federais na Imprensa paulista. Alí, mais uma vez, o Dr. Ruy Mesquita, como forma de protesto, fazia publicar as famosas receitas... De certa maneira, naquele período de chumbo, Dr. Ruy foi o nosso anjo da guarda.
Acredito que, apesar de toda a sua prática, o "caso Lincoln Volpini" tenha marcado você da mesma maneira indelével, que a mim. Tanto é que, hoje, você traz esse momento de volta e me compele a lhe escrever de tão longe, apenas para oferecer o meu apoio e a minha pequena parte de testemunho.
Querido Frederico, você sabe muito bem que os falsos ou pseudo-valores que sustentam as "Seguranças Nacionais" enquadram os artistas em suas leis para mascarar a sua fragilidade. E que é justamente fazendo isso, que eles acabam, ao contrário, por se revelar ainda mais fracos. Então, como num círculo vicioso, precisam, de novo, encontrar outra vítima para sobreviver. É porisso que as atrocidades se repetem ad infinitum. Estou muito feliz que, por esta razão, você retoma a história, com o "caso Volpini". Precisamos ficar vigilantes, pois, como com a Shoá, não se deve jamais esquecer.
Um grande abraço,
Sheila Leirner
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